A foto mostra a artista Bruna Pereira de costas, com cabelo escuro e encaracolado preso, pintando um mural. Ela veste uma camiseta branca. O braço direito, que está estendido e segurando um pincel, tem uma tatuagem de manga preta que vai do ombro até o pulso. A pessoa está pintando uma estrela amarela sobre um fundo azul-escuro. Abaixo do fundo azul, há uma paisagem montanhosa em tons de cinza. Na parte superior da imagem, em primeiro plano, uma mureta de concreto sustenta diversas garrafas plásticas de refrigerante, galões e potes, que estão servindo de recipientes para as tintas. Há pincéis e outras ferramentas de pintura misturados com as tintas. Acima da mureta, uma grade de metal e, ao fundo, um mural em tons de laranja e branco.

Confluir para potencializar: o encontro entre arte, cultura e educação para equidade

INICIATIVAS BEM-SUCEDIDAS DE EDUCAÇÃO, ARTE E CULTURA PODEM INSPIRAR AÇÕES MULTIPLICADOREAS
E POLÍTICAS DE PROMOÇÃO DA EQUIDADE

TEXTO Bianca Santana

Minha avó nunca frequentou a escola. Não sabemos se ela nasceu em 1919 ou 1925, porque seu registro de nascimento foi feito tardiamente, por ela mesma. Chegou a São Paulo, vinda das margens baianas do Rio São Francisco, no final da década de 1940. Foi empregada doméstica a vida toda e assim educou os dois filhos.

Minha mãe foi babá ainda na infância e empregada doméstica na adolescência, mas, por ter frequentado uma escola pública de qualidade, que oferecia até aulas de teatro, passou em um concurso público que permitiu maior remuneração e acesso à universidade. O crédito educativo, política pública de educação, foi fundamental para que minha mãe permanecesse no ensino superior. Formada em economia em 1979, mesmo sem trabalhar como economista, teve sua carteira profissional assinada por 27 anos, salário e benefícios que garantiram condições de vida melhores para ela, sua mãe, seu irmão e sua filha. 

Desde minha primeira infância, moramos em um conjunto habitacional (Cohab), o que permitiu à minha família sair do aluguel. Eu frequentei a escola desde a educação infantil, dancei no centro comunitário da Cohab, acessei a universidade pública, o mestrado e o doutorado graças às condições de vida que minha mãe possibilitou. Esforço e mérito dela, sem dúvidas, mas também políticas públicas de educação, cultura, emprego, moradia, previdência. 

 

“Equidade não é simplesmente tratar todos de forma igual, mas oferecer apoio adicional àqueles que enfrentam maiores barreiras.”

 

Minha família, negra, esteve entre as mais pobres na base da pirâmide social brasileira – sendo que os 10% de menor renda no país são compostos hoje de 80% de famílias negras, como aprendi nesta publicação –, até minha mãe aproveitar cada oportunidade de educação, cultura e trabalho que nos permitisse alguma mobilidade social. Talvez estejamos entre os 10% mais ricos agora – grupo composto de uma minoria de 30% de pessoas negras –, participando de movimentos coletivos que permitam a mais pessoas acessarem direitos, questionando a extrema desigualdade da sociedade brasileira. O sonho é que não exista base, topo ou pirâmide. Até lá, educação e cultura são fundamentais para que mais pessoas consigam prosperar como eu e minha família, com seus direitos garantidos e, consequentemente, com as desigualdades reduzidas.

As políticas públicas para pavimentar os caminhos de uma sociedade mais justa e igualitária precisam, nas suas formulações e implementações, considerar as diferenças entre as pessoas e as desigualdades no ponto de partida de cada uma. Alisson Santos e Guilherme Miranda nos ensinam, no texto de introdução desta publicação, que se pode ler adiante: “A solução para as disparidades sociais e econômicas vai além da simples distribuição igualitária de recursos; ela exige um sistema que reconheça e atue para combater as desigualdades que estruturam nossa sociedade”.

 

FOTOGRAFIA 
Cena da Cárcere ou Porque as Mulheres Viram Búfalos 
Fonte Agência Ophélia

Em palavras bem colocadas, os autores traduzem o que desenha e populariza o famoso meme de três pessoas com alturas diferentes tentando ver um jogo de futebol acima do muro, precisando de bancos de tamanhos diferentes. Pessoas mais baixas precisam de um banco mais alto para terem as mesmas condições de assistir ao jogo. Não é difícil entender.

A imagem mostra uma cena teatral com cinco performers em um palco. No centro, em primeiro plano, duas mulheres estão ajoelhadas e de mãos dadas, olhando uma para a outra. A mulher da esquerda tem pele escura, cabelo crespo preso em um turbante branco, e veste um vestido branco volumoso e um colar de pérolas. A mulher da direita, também de pele escura, veste um vestido vermelho volumoso, um colar e pulseiras vermelhas, e usa uma máscara de cabeça de búfalo realista, com chifres pretos e orelhas.

Ao fundo, há três homens de pele clara, todos vestindo túnicas brancas e aparentemente sem camisa por baixo. Os dois homens nas laterais estão tocando atabaques, tambores de madeira, enquanto o homem do centro observa a cena. O cenário do palco é escuro e minimalista, com uma parede cinza ou preta ao fundo. A iluminação é forte e focada nos intérpretes, destacando as cores das roupas e a intensidade da cena.

“A cultura não pode ser privilégio ou luxo reservado a poucos, mas, sim, ter seu acesso universalizado/
democratizado a todos...”

Assim também é na educação. Muitos especialistas afirmam que investir em educação é garantir, além do desenvolvimento da sociedade, crescimento econômico, mas esse investimento precisa considerar as diferentes condições, contextos e realidades. As barreiras de acesso à educação de qualidade resultam no aumento do desemprego, das discriminações, da criminalidade, das desigualdades. “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”, já nos ensinou Paulo Freire.

Do mesmo modo que a educação, a cultura também é um direito fundamental para o exercício da cidadania e o pleno desenvolvimento humano. A cultura não pode ser privilégio ou luxo reservado a poucos, mas, sim, ter seu acesso universalizado/democratizado a todos, uma vez que nos conecta às nossas raízes, amplia horizontes, fortalece identidades e constrói pontes entre diferentes realidades. Ao garantir esse direito, o Estado reconhece e valoriza a diversidade das expressões humanas, rompendo com uma lógica excludente, que historicamente negou a muitas pessoas, especialmente as negras, as indígenas e as periféricas, o direito de criar, acessar e viver a cultura em sua plenitude.

“Quando educação e cultura são trabalhadas de forma conjunta e com intencionalidade, potencializam transformações profundas e duradouras.”

Mais do que expressão simbólica, a cultura é prática cotidiana que promove pertencimento, autoestima e pensamento crítico – elementos indispensáveis para a construção de uma sociedade mais justa. Quando as políticas públicas asseguram a fruição e as práticas culturais desde a infância, criam-se condições mais equitativas para que todas as pessoas possam sonhar, realizar e contribuir no coletivo. Para alcançar a equidade, portanto, é necessário que a cultura seja compreendida e praticada como um instrumento de transformação social e garantia de direitos.

O direito à educação e à cultura precisa ser garantido a pessoas de todas as idades. Por isso, faço o convite para que pensemos na aprendizagem ao longo da vida – lifelong learning, em sua origem na década de 1960 – como horizonte. Seja na horta comunitária, no cursinho popular, na luta por cotas, na roda de capoeira, na apresentação de hip-hop, na companhia de dança ou no podcast – como são abordadas nas reportagens desta revista –, as pessoas de diferentes idades ensinam e aprendem, possibilitando desenvolvimento pessoal, familiar e comunitário, aumentando a participação cidadã e a qualidade de vida. Pensar na aprendizagem ao longo da vida significa reconhecer que a cultura nunca está dissociada da estratégia coletiva para o enfrentamento das desigualdades.

FOTOGRAFIA 
Fonte Agencia Ophélia

A escola pode e deve ser espaço de criação artística, de celebração da diversidade cultural, de expressão das identidades e de construção coletiva de saberes, assim como os espaços culturais são educativos pelas aprendizagens que proporcionam. 

A foto é um close-up de um aluno em uma sala de aula, visto por cima do ombro. O aluno, com cabelo escuro e camisa clara com detalhes em azul e verde, está sentado em uma carteira escolar e escrevendo em um caderno espiral com a mão direita. No caderno, há anotações e desenhos.
Na carteira à frente do aluno, ou na mesma carteira, há um copo com vários lápis de cor de diferentes cores, um estojo verde escuro e uma garrafa de água branca com um rótulo azul. Ao fundo, as mãos de outro aluno são visíveis, também escrevendo. O ambiente é de sala de aula, com mesas e cadeiras claras. A iluminação é natural e foca na atividade de estudo.

Integrar arte, cultura e educação é romper com currículos escolares engessados e visões utilitaristas de ensino, apostando em uma aprendizagem que reconhece o corpo, a memória, a emoção e a criatividade como partes fundamentais do processo educativo. Garantir os elementos de aprendizagem crítica, a partir de trocas e práticas culturais, em diferentes espaços amplia as possibilidades de desenvolvimento pleno. A aliança entre educação, arte e cultura potencializa os sentidos do aprender e do ensinar, tornando-os mais significativos, emancipadores e conectados com a vida.

Na perspectiva de promover reflexões, sensibilizar e dar visibilidade ao que acontece no Brasil, a primeira edição da Revista Observatório, da Fundação Itaú, trata da temática da desigualdade, apresentando diferentes iniciativas de arte, cultura e educação como mecanismos de combate a problemas socioeconômicos tão latentes e urgentes de serem endereçados para a construção de uma sociedade mais justa, que garanta pertencimento e prosperidade a todos os brasileiros. 

 

“Alfabetizar todas as pessoas e oferecer oportunidades culturais e educativas para que elas percebam o mundo criticamente e nele possam intervir é papel do Estado, da família e da sociedade como um todo.”

 

A reportagem “Com ações de cultura e educação, jovens de Belém descentralizam o debate climático na cidade-sede da COP 30” mostra que as yellow zones foram estratégias desenvolvidas por jovens e coletivos artísticos para ampliar as possibilidades de participação na Conferência das Partes da Organização das Nações Unidas (COP). Por meio da discussão do cenário de mudança climática, eles utilizam a arte e os espaços culturais como ponto de encontro para mobilização e formação, com rodas de conversa e campanhas lúdicas em escolas, bem como sessões de leitura e de valorização da ancestralidade. Crianças, jovens e adultos da cidade-sede da COP aumentam a capacidade de discernir e agir em um cenário desafiador e excludente. Isso alarga as possibilidades de participação política e a apropriação do conhecimento já produzido e sistematizado pela humanidade, com ressignificação em um contexto específico e espaço para a criação do novo.  

Os movimentos sociais e as organizações da sociedade civil (OSCs), como apresentados nas histórias que compõem esta revista, têm desenvolvido um papel importante para o fortalecimento do Estado no desafio de dar conta de uma tarefa tão complexa e grandiosa como é o combate às desigualdades. Práticas colaborativas e abertas, como segurança alimentar com orgânicos em hortas comunitárias, artes visuais que desenvolvem a economia criativa e cursos técnicos de música, nos inspiram a experimentar mais, a contar mais do que tem sido feito e a demandar mais políticas públicas eficientes e participativas.

 

FOTOGRAFIA 
Cena de MID-No Estoy Solo
Fotogrado pela Olga Lysloff

Assim é abordado na reportagem “As Zeferinas da educação”, quando Janice Marques vê sua vida transformada pela educação popular e planeja trazer a mãe, o marido e a amiga para o cursinho, como testemunhamos na verdade da música “Yayá Massemba”, conhecida na voz de Maria Bethânia – “Vou aprender a ler pra ensinar meus camaradas” –, apontando a importância da construção coletiva de saberes e a necessidade da educação para a melhoria da vida de todas as pessoas. 

Esta publicação nos oferece um excelente mapa, com histórias, dados, infográficos, conceitos, fotos, vídeos e experiências inspiradoras que permitem subsidiar a ampliação de mais ações e políticas públicas que escalem as possibilidades de transformação social.

A imagem mostra uma performance artística em um palco escuro, onde um homem de pele clara e torso nu interage com uma projeção em tela grande. O homem, à direita, está de pé, de perfil, com os braços estendidos e as mãos tocando a imagem projetada. A projeção exibe múltiplas imagens de um homem (possivelmente o mesmo intérprete) em sequências repetidas, com as mãos tocadas nas costas um do outro, criando um efeito de continuidade ou clone. As imagens projetadas têm um tom de filme antigo, com alguma granulação. O cenário é minimalista, focado na interação entre o artista e a projeção visual.
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