
COMO UM GALPÃO NA ZONA NORTE DO RIO DE JANEIRO VIROU UM CENTRO INTERNACIONAL DE TALENTOS DA ARTE CONTEMPORÂNEA
TEXTO Solon Neto da Alma Preta
Dandara Ribeiro se equilibra concentrada na ponta dos pés, com olhar fixo e expressão séria. As panturrilhas contraídas e os braços arqueados são parte dos exercícios do dia, repetidos pelos 23 bolsistas de um dos núcleos de formação da Escola Livre de Dança da Maré. Assim como vários deles, a jovem de 22 anos vê na dança uma forma de ganhar a vida.
Criada em Ramos, a moradora de Jacarepaguá atravessa a cidade e participa de aulas na Maré e de atividades na Ilha do Fundão, onde estuda e estagia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Seguindo sua “pesquisa de corpo”, Dandara quer se profissionalizar e não descarta se tornar parte da Lia Rodrigues Companhia de Danças, o grupo de bailarinos profissionais que divide espaço com a escola no Centro de Artes da Maré.
Dandara, que recebe bolsa de 800 reais no núcleo de formação continuada da Escola Livre de Dança, acredita que essa experiência mudou sua perspectiva sobre a área: “Abriu muito minha visão para oportunidades em dança e áreas de pesquisa em dança. No que eu posso focar, no que eu quero trabalhar”.
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A obra mais recente do grupo, Encantado, foi apresentada em cerca de 17 países de três continentes desde dezembro de 2021
Em uma das ruas que deságuam na célebre e movimentada Avenida Brasil, um símbolo da desigualdade social no Rio de Janeiro, o imponente galpão do Centro de Artes da Maré abriga oportunidades para quem sonha com o mundo da dança. O que já foi uma fábrica no passado tornou-se um centro de formação de bailarinos e de criação de espetáculos que conectam um dos mais conhecidos complexos de favelas da capital fluminense – a Maré – a algumas das principais salas de teatro do mundo.
Parte da Redes da Maré, organização civil que promove acesso a direitos, o centro de artes funciona no local desde 2014, em duas grandes áreas no galpão de 12 metros de altura e 1.200 metros quadrados. Após a entrada, um largo tablado abriga as aulas gratuitas da escola de dança, com núcleos de formação que atraem jovens artistas como Dandara. São cerca de 300 alunos de todas as idades.
“É uma dedicação de uma vida. É um jeito de existir no mundo. É uma maneira como entendi que é possível eu estar aqui”
Ao lado, conectada por uma passagem interna, funciona a Lia Rodrigues Companhia de Daas, cujos espetáculos lotam teatros dentro e fora do Brasil. A obra do grupo, Encantado, foi apresentada em cerca de 17 países, de três continentes, desde dezembro de 2021. A fundadora da companhia, Lia Rodrigues, é um dos principais nomes da dança contemporânea.
Enquanto os alunos do núcleo de formação derramam suor repetindo movimentos de balé, os bailarinos da companhia estão concentrados e mergulhados no intenso processo da criação de um novo espetáculo. Estes receberam a reportagem após horas desse esforço no centro de artes sob o clima de uma das semanas mais quentes do ano no Rio de Janeiro.
“NÃO QUERO SER SÓ O BAILARINO QUE É DA MARÉ”
Os nove bailarinos da companhia são jovens de várias regiões da cidade, a maioria negra; quase todos são naturais da capital fluminense. Andrey Silva e Raquel Alexandre são dois dos três bailarinos que vieram da Maré. Ambos passaram pela escola de dança do centro de artes e nos recebem no palco onde ensaiam e criam todos os dias o novo espetáculo que levarão mundo afora.
O Complexo de Favelas da Maré é uma cidade dentro da cidade. Cerca de 140 mil pessoas vivem nas várias comunidades do bairro que cresceu na Zona Norte, às margens do azul da Baía de Guanabara. A área, como tantas no Rio, é militarizada e convive com a dinâmica de operações policiais. Nessas ocasiões, as aulas do centro de artes são suspensas.

Mapa da Maré, Rio de Janeiro/RJ 🔗
Andrey Silva estuda dança na UFRJ e quer se tornar professor universitário e coreógrafo, um artista que pode falar sobre qualquer coisa. O bailarino profissional conheceu o Centro de Artes da Maré no início da adolescência e entrou na companhia Lia Rodrigues aos 23 anos. Deslumbrado diante de Pororoca, um espetáculo do grupo, diz que ali pensou: “Nossa, acho que é isso que eu quero”.
“Na companhia, acho que a minha maior alegria é viver da minha arte, é viver da minha profissão, porque sei que no Brasil é muito difícil viver de arte – e, falando da dança, é ainda mais difícil.”
Dito e feito. O convite para o grupo aconteceu após uma turnê na Europa, quando seu núcleo de formação participou da remontagem do clássico espetáculo May B, criado pela companhia francesa Maguy Marin – da qual Lia Rodrigues fez parte nos anos 1980.
Desde então, Andrey se apresentou com a companhia da Maré em países como Alemanha, Austrália, Espanha, França, Hungria, Noruega, Portugal, República Tcheca, Suécia e Suíça, além de diversas cidades do Brasil.
Vestindo roupas claras e leves, o bailarino fala de queixo erguido que não acha justo ser lembrado apenas como alguém que veio da Maré, quando também deveria ser pelos frutos do seu trabalho. Mostrando a si mesmo com gestos precisos, ele diz com orgulho que seu próprio corpo já conta essa história: “Toda vez que vou fazer uma minibio está ‘Andrey Silva, 28 anos, cria da Maré’.”
Ele vê o centro de artes que o acolheu na adolescência como um espaço com a característica de ser formador de cidadãos. Hoje, orgulha-se de ter conquistado o que sonhou e de poder não apenas sobreviver, mas viver de forma digna, viajar e pagar as contas com o que escolheu e sabe fazer bem.
“Na companhia, acho que a minha maior alegria é viver da minha arte, é viver da minha profissão, porque sei que no Brasil é muito difícil viver de arte – e, falando da dança, é ainda mais difícil.”
Equidade
Fundação Itaú/ Equidade.info, 2025. Arte e Cultura nas Escolas. 🔗
“A GENTE LEVA NOSSO CORPO À EXAUSTÃO”
Raquel Alexandre, de 29 anos, também tem origem na Maré e participou do espetáculo May B durante sua formação. A bailarina passou a integrar a companhia de Lia Rodrigues para participar de Encantado há cerca de três anos. Sob o teto cilíndrico do galpão, no qual giram dezenas de exaustores eólicos de alumínio, a artista saúda seu local de formação:
“O centro de artes é especial, porque nasce sob a perspectiva de tratar a dança de forma profissionalizante. Muito se fala de dança, muito se fala de cultura. A gente tem vários espaços, a favela tem muitas manifestações artísticas, mas a gente não tinha esse lugar de tratar a dança ou a arte de maneira profissional”.
E é com ar profissional que a também aluna da UFRJ destaca como diferencial da companhia em que trabalha o número de vezes que consegue apresentar o mesmo espetáculo: Encantado foi encenado 154 vezes em três anos. Para Raquel, isso faz do trabalho algo mais coeso e amadurece sua experiência como intérprete e artista.
Explicando os desafios profissionais da área, ela destaca que os processos vividos na dança – como a criação da qual participa atualmente – exigem esforços físicos, mentais e de busca por repertório: “A gente leva o nosso corpo à exaustão”. De cabelos trançados, a bailarina explica que foi no contato com o centro de artes que ela percebeu na dança uma possibilidade de profissão. “Eu queria estar aqui o tempo inteiro, mas não tinha ainda a percepção desse caminho.”
Com tom leve, mas sério, ela se inclina à frente junto com o pingente em forma de estrela que carrega no pescoço e diz que sempre bate na tecla da importância da profissionalização. “Eu, uma criança de favela... A gente não tem tanta perspectiva do que pode ser um trabalho profissional com arte, com dança, seja lá o que for”, reflete.
Em relação à oferta de aulas de dança, o projeto de formação no Centro de Artes da Maré é pioneiro, uma vez que apenas em 2024 uma lei municipal que institui o ensino de dança nas escolas foi aprovada na cidade. A lei municipal do Rio de Janeiro no 8.604/2014 entra em vigor em outubro de 2025 e tem como objetivo promover a “expressão corporal e a criatividade dos alunos”, por meio de coreografia, gestos e diferentes ritmos e tipos de dança.
INFOGRÁFICO
Realização de atividades artísticas nas escolas e seus benefícios
Conforme a pesquisa “Arte e cultura nas escolas”, da Fundação Itaú em parceria com o Equidade.info, apresentação de dança é a atividade mais realizada por estudantes no Brasil – 57% disseram ter assistido a apresentações ou se apresentaram em atividades desse tipo em 2024. O número supera até a participação em festas populares, como as festas juninas.
Equidade
Fundação Itaú/ Equidade.info, 2025. Arte e Cultura nas Escolas. 🔗
Dança é a atividade mais realizada nas escolas, de acordo com pesquisa da Fundação Itaú e do Equidade.info: 57% dos estudantes disseram ter assistido a uma apresentação de dança em 2024.
Além disso, é alta a percepção de estudantes, docentes e gestores sobre os benefícios da prática de atividades artísticas nas escolas, como o desempenho escolar e a vontade de estudar e de frequentar a escola.
“NÃO COMPACTUO COM ESSA IDEIA DE QUE
FAVELA É O LUGAR DA FALTA”
Reconhecida internacionalmente, Lia Rodrigues, de 69 anos, conhece Andrey e Raquel desde que eles tinham 14. Junto com os vários bailarinos que já passaram por sua companhia, ela assinou espetáculos aclamados, como Pindorama, Para que o céu não caia, Fúria e Encantado. Descrita como grande coreógrafa, Lia ri e desconversa: “Você me acha grande?”. Quando fala sobre o Centro de Artes da Maré, seus olhos brilham mais.
“Quando a gente chegou, [o local] estava abandonado havia 20 anos. Sem teto, sem nada. Eu me lembro, abrindo a porta, de ver tudo destruído, cheio de cocô de pombo, e eu falei ‘Nossa, que lindo!’, porque vi o futuro, sabe?”, conta ela ao recordar o esforço financeiro com a Redes da Maré para investir no espaço, um dos poucos equipamentos culturais na região.
INFOGRÁFICO
Acesso a apresentações de dança no Brasil
Apesar da relevância, são duas fundações estrangeiras que mantêm os projetos que funcionam no local: Christine Kranz, de Liechtenstein, e Fondation d’Entreprise Hermes, da França – que financia o projeto desde sua fundação, em 2011. Lia ressalta que não há apoio efetivo de nenhum nível de governo no Brasil e que recursos públicos vêm apenas de forma pontual por meio de leis de incentivo.
Hábitos Culturais
Fundação Itaú/ Datafolha, 2024. Hábitos Culturais (2024). 5ª edição. 🔗
Mesmo sem apoio local, o espaço forma e emprega pessoas da região, entre elas a coordenadora da escola de dança, Karoll Silva, de 32 anos. Formada bailarina no local e ex-membro da companhia, ela lidera a coordenação da escola há três anos. “Eu me encontrei, estou muito feliz nesse trabalho”, conta.
Lia Rodrigues vê no trabalho na Maré uma aula de vida e de Brasil e ressalta que encontrou ali uma força cultural e artística que, apesar de invisibilizada e sem ter para onde transbordar, é enorme. “Não compactuo com essa ideia de que a favela é o lugar da falta. Eu acho que é, sim, a falta de uma posição efetiva do governo de melhoria da condição de vida dos moradores”, defende.
FOTOGRAFIA
Escola Livre de Danças da Maré
Fotografia por Patrick Silva/Alma Preta
“É UMA DEDICAÇÃO DE UMA VIDA,
É UM JEITO DE EXISTIR NO MUNDO”
Em suas falas, Raquel e Andrey deixam claro o esforço e a dedicação exigidos pela dança, da formação na Maré aos palcos internacionais. A seriedade com que encaram a profissão que consideram transformadora não só lhes deu uma nova perspectiva, mas uma forma de vida.

“É um trabalho integral. A gente precisa cuidar da saúde o tempo inteiro. Do corpo o tempo inteiro. A gente precisa estar sempre lendo, sempre estudando, sempre indo atrás de ver filme, de ver exposição artística. É uma dedicação de uma vida. É um jeito de existir no mundo. É uma maneira como entendi que é possível eu estar aqui”, diz Raquel.
E, apesar das apresentações ao redor do planeta e das experiências das viagens, os bailarinos concordam que se apresentar no Brasil tem um gosto especial.
“Eu me sinto em casa. Minha família vem me ver”, diz Raquel. “Aqui é a nossa gente. Acho que tem um calor diferente, um frio na barriga diferente. Ainda mais quando a gente se apresenta aqui, neste espaço, o Centro de Artes da Maré”, conclui Andrey.