2,32%

é o aumento do PIB do Brasil se a probabilidade de acessar o ensino técnico público fosse 3 vezes maior.

0,55%

é o índice de Gini da renda do trabalho se a probabilidade de acessar o ensino técnico público fosse 3 vezes maior, representando uma redução da desigualdade de renda.
Triplicar o acesso ao ensino médio técnico pode gerar aumento de até 2,3% no PIB brasileiro.

O estudo examina as consequências macroeconômicas da expansão da oferta do ensino médio técnico no Brasil, que ainda é baixa, se comparada a de outros países, como os da OCDE, europeus e alguns latino-americanos. O modelo de equilíbrio total adotado pelos pesquisadores mostra os benefícios da expansão para a sociedade, e não apenas para os estudantes. Para isso, eles simularam os efeitos positivos do aumento da oferta em variáveis agregadas como Produto Interno Bruto (PIB) do país, quantidade de trabalhadores em relação ao nível máximo de escolaridade alcançado, distribuição de renda e bem-estar dos indivíduos. Ao final, são listadas também recomendações objetivas para lideranças políticas potencializarem os benefícios dessa expansão para a sociedade.

Investimentos na Educação Profissional e Tecnológica geram maior empregabilidade e rentabilidade para trabalhadores, contribuindo com desenvolvimento socioeconômico do país. Profissionais com ensino técnico ganham, em média, 32% a mais do que aqueles que possuem apenas ensino médio, além de terem taxa de desemprego inferior. Dados reforçam o potencial de fortalecer a Educação Profissional e Tecnológica no país, especialmente para as juventudes.

Introdução

A educação profissional técnica de nível médio (ensino técnico) é uma modalidade de ensino que visa à preparação para o exercício de profissões. Está prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) (BRASIL, 1996) e atende aos direitos constitucionais à educação e à profissionalização. Estes devem ser assegurados pelo Estado, pelas famílias e pela sociedade, segundo o artigo 227 da Constituição Federal (BRASIL, 1988). A formação para o trabalho e para o exercício da cidadania está prevista na LDB, sendo uma das responsabilidades da educação básica, que vai desde a educação infantil até o ensino médio, inclusive.

Segundo a LDB, o ensino técnico pode ser desenvolvido nas próprias escolas de ensino médio. E também em cooperação com instituições especializadas em educação profissional, nas formas articulada ao ensino médio ou subsequente ao mesmo (BRASIL, 1996). O ensino técnico é uma formação integral e integrada, que desenvolve conhecimentos acadêmicos, competências gerais para o mundo do trabalho e habilidades para o exercício de profissões específicas.

Em sua articulação com o ensino médio, o ensino técnico pode ser oferecido nas formas integrada ou concomitante. Na forma integrada, o estudante é conduzido à conclusão da educação básica com uma habilitação profissional técnica de nível médio. Isso é feito em uma única instituição de ensino, sendo efetuada uma única matrícula para cada estudante. Na forma concomitante, são realizadas matrículas distintas para o mesmo estudante, podendo ocorrer na mesma instituição de ensino, em instituições de ensino distintas e também em convênios sob regime de intercomplementaridade com projetos pedagógicos unificados (BRASIL, 1996).

Com a reforma do ensino médio, estabelecida pela Lei 13.415, de fevereiro de 2017, o currículo do ensino médio passou a ser composto pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e por itinerários formativos. Entre estes, está previsto o itinerário de formação técnica e profissional (BRASIL, 2017). Com isso, ampliam-se as possibilidades de expansão do ensino técnico dentro do ensino médio, uma vez que o novo modelo prevê a articulação da educação profissional dentro das escolas ofertantes de ensino médio tradicional, como itinerário formativo.

Além disso, o decreto que regulamenta a lei do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) (BRASIL 2020) fomenta a expansão do ensino técnico articulado ao ensino médio e o itinerário de formação técnica e profissional. Isso porque o decreto prevê o duplo cômputo das matrículas dessa modalidade no cálculo do Fundeb (BRASIL, 2021).

Nesse contexto, a oferta do ensino médio técnico ganha destaque e prioridade para o poder público. Isso ocorre especialmente nas redes estaduais de educação, que concentram 84,5% das matrículas do ensino médio (Inep, 2022). A educação profissional também pode ser uma proposta pedagógica prioritária para o ensino médio em tempo integral. Diante disso, é esperado que haja na educação pública brasileira uma grande expansão da oferta de ensino médio articulado à educação profissional.

Nos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o ensino técnico tem, de maneira geral, elevada participação dentro do ensino médio. Entre os países-membros, em média, 37% dos estudantes concluintes são da educação profissional (OCDE, 2022). Em alguns casos, como na Bélgica, na Finlândia e na Holanda, o ensino médio técnico é responsável por metade dos concluintes, enquanto, entre os países da Europa, a média é de 44%. No entanto, o cenário é bastante diferente no Brasil, onde apenas 8% dos concluintes do ensino médio obtêm uma habilitação profissional. Este percentual é baixo mesmo em comparação com outros países da América Latina, como o México (34%), o Chile (29%), Colômbia (24%) e Costa Rica (20%).

Concluintes do ensino médio com habilitação profissional

No contexto brasileiro, a pouca abrangência do ensino médio técnico não está associada a um baixo interesse dos estudantes pela modalidade. Mesmo considerando que nem todos os alunos do ensino médio tenham afinidade pelo ensino técnico, existe uma escassez de vagas no Brasil. Pela experiência de oferta do Centro Paula Souza (CPS), há, em geral, cinco vezes mais candidatos do que o número de vagas disponíveis para o ensino médio técnico. O CPS é a maior instituição ofertante de ensino técnico do país, com mais de 226 mil estudantes em 216 cursos, distribuídos entre 224 escolas técnicas (Maia, 2023).

Centro Paula Souza (CPS)

Tendo em vista que uma das funções do ensino técnico é formar profissionais, espera-se que essa modalidade tenha um efeito positivo para os indivíduos que a concluíram. Efeito positivo especialmente quando se observam as características de trabalho e renda. O ensino técnico pode potencialmente expandir as oportunidades para os jovens no mundo do trabalho, permitindo o acesso a ocupações melhores, criando melhores condições de vida e de continuidade dos estudos, em nível superior. Esse efeito individual pode gerar resultados significativos sobre a distribuição de renda e o mercado de trabalho. E até mesmo no desenvolvimento econômico, a depender das condições nas quais se relacionam as políticas econômicas, educacionais, de trabalho e renda. Consequentemente, a expansão do ensino médio técnico pode gerar ganhos de produtividade e de produção agregada para a economia, além de impactar a distribuição de renda. Vale ressaltar que o custo monetário de implantação do ensino médio técnico é superior ao do ensino médio tradicional. Assim, os resultados da expansão do ensino técnico não são triviais.

Barros et al. (2023), em uma vasta investigação na literatura sobre os efeitos do ensino técnico, observaram que aqueles que concluem a educação profissional técnica de nível médio têm uma probabilidade 5,5 p.p maior de ocupação, em sua maioria associada ao trabalho formal. Além disso, a remuneração é cerca de 12% maior em relação às pessoas com ensino médio não técnico, podendo atingir mais do que o dobro, caso o egresso do ensino técnico tenha acesso a um emprego formal dentro da área de formação, mesmo que não chegue a concluir a educação superior. Os autores também consideraram que o ensino técnico gera um benefício social da ordem de R$ 340 mil por egresso, o que corresponde a uma relação de R$ 8,50 em benefícios para cada R$ 1,00 investido no ensino técnico.

Benefício social do ensino técnico

As evidências encontradas por Barros et al. (2023) demonstram que a educação profissional tem um impacto inequivocamente substancial sobre a empregabilidade e a remuneração dos seus egressos. A magnitude do impacto, contudo, não é constante e varia conforme as características pessoais do egresso (como seu nível final de escolaridade) e do trabalho que ocupa (emprego formal, informal e área de formação). Apesar disso, não se conhecem estudos que tenham investigado a importância do ensino técnico em relação à magnitude de seus benefícios à sociedade. Isto é, não somente os resultados para os indivíduos, mas considerando os efeitos sinérgicos e suas externalidades. Portanto, o objetivo deste estudo foi examinar as consequências macroeconômicas da expansão do ensino médio técnico no Brasil.

Destaques da pesquisa

Se triplicado o acesso ao ensino médio técnico no país, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro poderia registrar aumento de até 2,32%, resultado decorrente da maior empregabilidade e rentabilidade promovida aos trabalhadores a partir da formação profissional. A conclusão é da pesquisa “Potenciais efeitos macroeconômicos com expansão da oferta pública de ensino médio técnico no Brasil”, do Itaú Educação e Trabalho, elaborada pelos pesquisadores Marcelo Santos, Sergio Firpo, Vitor Fancio e Clarice Martins. O estudo teve por objetivo examinar as consequências macroeconômicas da expansão do sistema de Educação Profissional e Tecnológica (EPT), particularmente o ensino técnico dentro do ensino médio, no Brasil.

A pesquisa mostra que esse cenário se dá principalmente pelo impacto positivo da EPT na vida profissional dos trabalhadores. O estudo calcula que profissionais com ensino médio técnico ganham, em média, 32% a mais do que aqueles que possuem apenas ensino médio tradicional. Além disso, mais profissionais com formação técnica estão inseridos no mundo do trabalho. A taxa de desemprego entre os profissionais com ensino técnico é, em média, de 7,2%, enquanto entre os que possuem somente ensino médio é de 10,2%.

Segundo a superintendente do Itaú Educação e Trabalho, Ana Inoue, os dados corroboram o valor e o potencial da Educação Profissional e Tecnológica para a transformação de vidas e, consequentemente, para o país. “O Poder Público, o setor produtivo e a sociedade em geral precisam valorizar e investir na ampla oferta qualificada da EPT, modalidade de ensino que está alinhada com as tendências do mundo do trabalho, oferece oportunidades de inserção digna produtiva para os jovens e contribui com o progresso do país. É urgente colocar a Educação Profissional e Tecnológica no centro da estratégia de desenvolvimento socioeconômico brasileiro”, afirma.

Redução de desigualdades e ampliação de dignidade

O estudo mostra, ainda, que a expansão qualificada do ensino médio técnico pode reduzir em 5,4% a proporção de trabalhadores com ensino fundamental ou ensino médio tradicional, que geralmente estão em postos de trabalho mais operacionais. Além disso, a proporção de trabalhadores com ensino técnico ou ensino superior aumenta em 10,4%.

Ampliar o acesso a EPT tem potencial também para diminuir a desigualdade salarial. Tomando como base o índice Gini, que aponta a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos, triplicar o acesso à EPT pode reduzir o indicador de 0,58 para 0,55. Vale destacar que, pelo índice Gini, o valor de zero representa a situação de igualdade, sendo ideal que se percorra um indicador cada vez menor. Essa redução da desigualdade salarial promovida pela expansão do ensino médio técnico ocorre, principalmente, porque, neste cenário de maior acesso a essa modalidade de ensino, a diferença da média salarial reduz entre os trabalhadores que têm como escolaridade máxima o ensino médio tradicional e aqueles com até o ensino superior.

Quadros síntese dos resultados:

Redução de desigualdades e ampliação de dignidade

Considerações

Os recentes estudos não consideram explicitamente como as alterações na demanda por trabalho e na estrutura da oferta de formação profissional poderiam potencializar ou reduzir os efeitos desejáveis com a expansão da oferta da EPT no ensino médio. Contudo, espera-se que o aumento na demanda por trabalhadores com ensino técnico, ou uma melhor orientação da oferta de cursos à luz das tendências do futuro do mundo do trabalho, poderiam potencializar os efeitos positivos da expansão do ensino técnico na sociedade. Pensando em ações que poderiam potencializar os benefícios para a sociedade com a expansão do ensino médio técnico, elaboramos algumas recomendações para lideranças políticas:

  1. Implementar políticas públicas intersetoriais:
    a. Implementar, no âmbito federal, políticas públicas e/ou programas intersetoriais de fomento ao ensino técnico que articulem educação, desenvolvimento econômico, trabalho, assistência social, cultura, ciência e tecnologia.
  2. Garantir a formação profissional das juventudes alinhada às tendências do futuro do mundo do trabalho, em termos quantitativos e qualitativos:
    a. Utilização de informações sobre as profissões e habilidades em alta demanda atualmente e no futuro pelas economias emergentes, por meio da integração de bases de dados de vagas de empregos, do mapeamento dos perfis de demandas por formação profissional e da definição da oferta de cursos de técnicos à luz das potencialidades identificadas.
    b. Alinhamento dos currículos e das práticas pedagógicas em sala de aula para promover o desenvolvimento de competências e habilidades demandadas pelo mundo do trabalho em constante transformação para formar trabalhadores técnicos de nível médio.
  3. Garantir eficiência na oferta de formação profissional para as juventudes:
    a. Reformulação do Catálogo Nacional de Curso Técnicos considerando as economias emergentes. Estabelecer capítulos específicos com competências gerais para o mundo do trabalho, necessárias para atuar em qualquer profissão.
    b. Nivelamento e recuperação da aprendizagem dos estudantes para suprir defasagens do sistema educacional, inclusão de módulo básico obrigatório em tecnologia e em inglês.
    c. Mitigar as causas de abandono e evasão escolar com ações como fomento de auxílio estudantil no que se refere à transporte, alimentação e outros tipos de custeio.
  4. Democratizar o acesso das juventudes aos programas de formação profissional:
    a. Implementação de programas federais e estaduais que visem a expansão do ensino médio técnico com ações afirmativas para acesso e permanência, considerando as desigualdades raciais, socioeconômicas e de gênero.
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